
Quatro semanas para reordenar a vida em Cristo
Em 20 de maio de 1521, uma bala de canhão atravessou as pernas de um fidalgo basco de trinta anos chamado Iñigo López de Loyola. Era vaidoso, ambicioso, dado à leitura de romances de cavalaria. Não tinha vocação religiosa nenhuma. Da fé recebida no berço, restavam mais os hábitos exteriores que o fervor.
Daquela cama de convalescença — entre dois livros que a cunhada lhe trouxe à míngua de outros, uma Vida de Cristo de Ludolfo da Saxônia e a Legenda Áurea de Tiago de Voragine — começou tudo. Onze meses depois, numa pequena gruta à beira do rio Cardoner, em Manresa, ele escreveria as primeiras notas de um manual seco, numerado, prático. Quinhentos anos mais tarde, esse manual continuaria a ser praticado em todos os continentes, em casas de retiro, por homens e mulheres de toda condição.
Os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola são um dos maiores patrimônios da espiritualidade cristã. Mas é um livro estranho. Quem o pega pela primeira vez, esperando o tipo de prosa devocional que se encontra nas livrarias, não encontra nada disso. Encontra um manual numerado de cabo a rabo, cheio de listas, regras e instruções práticas que parecem mais um roteiro técnico do que um livro espiritual.
Este livro foi escrito para preencher exatamente essa distância.
"O homem foi criado para louvar, reverenciar e servir a Deus, nosso Senhor, e por meio disso salvar a sua alma."
— Santo Inácio de Loyola, Princípio e Fundamento
A Editora Homilias publica esta apresentação dos Exercícios Espirituais com um propósito claro: oferecer ao leitor brasileiro adulto, que carrega a fé católica e quer conhecer com profundidade um dos maiores patrimônios da espiritualidade cristã, uma porta de entrada fiel, sóbria e firme.
Apresenta a vida do santo com fidelidade às fontes — não a hagiografia idealizada, mas o homem real, o jovem fidalgo violento de Pamplona, o convalescente de Loyola, o peregrino de Manresa, o estudante tardio de Paris, o fundador da Companhia em Roma. Apresenta a estrutura completa do retiro de quatro semanas. Apresenta as duas séries de regras de discernimento dos espíritos. Apresenta os métodos de oração ignaciana. Apresenta a espiritualidade mais ampla que se irradia dos Exercícios. Apresenta as modalidades concretas pelas quais o leitor pode hoje, no Brasil, fazer o retiro a sério.
Há equívocos contemporâneos sobre os Exercícios que esta obra recusa frontalmente. Vale o leitor saber:
É, em vez disso, uma introdução clara, profunda e fiel, escrita em tom devocional sem cair em clichês de folheto, histórico sem virar livro acadêmico, espiritual sem sentimentalismo.
Para o católico adulto que ouviu falar dos Exercícios e quer entender, com seriedade, o que está em jogo. Para o cristão em discernimento de estado de vida — vocação, casamento, sacerdócio, mudança profissional — que pressente que precisa de um instrumento à altura da decisão. Para quem deseja aprender a discernir os espíritos que operam na alma e distinguir, com critério católico, o que vem de Deus, o que vem do próprio amor-próprio e o que vem do inimigo da natureza humana.
Para o leigo que quer fazer da oração diária algo mais sério do que devoção dispersa. Para o jesuíta jovem, o seminarista, o catequista, o diretor espiritual em formação que precisa ler uma apresentação acessível antes de mergulhar nos manuais técnicos. Para a alma que sente, em silêncio, que a vida está desordenada — apegos demais, pressas demais, distrações demais — e suspeita que existe um caminho para reordená-la.
Em resumo: para quem está disposto a parar de ler sobre a vida espiritual e começar a vivê-la com método.
Os Exercícios foram aprovados pelo papa Paulo III em 1548, traduzidos depois para todas as línguas, praticados em casas de retiro de todos os continentes. Cinco séculos de almas os atravessaram. Cinco séculos de vidas reordenadas por eles. Santos canonizados foram formados nesta escola — Francisco Xavier, Pedro Canísio, Roberto Belarmino, Edmundo Campion, Aluísio Gonzaga, e tantos outros. Bento XVI os recomendava como instrumento privilegiado de formação cristã. O Papa Francisco, primeiro pontífice jesuíta da história, foi formado por eles e por eles fala.
Não há, na espiritualidade católica posterior à Reforma, instrumento mais testado, mais aprovado pela Igreja, mais frutuoso. Quem entra nos Exercícios entra numa tradição viva que conecta a sua alma com a alma de Inácio, e através dela com a alma de Cristo, na grande oração da Igreja peregrina.
Este livro é uma porta. Não é a casa.
A casa são os Exercícios mesmos, feitos a sério, sob direção, em retiro fechado ou na vida cotidiana segundo a famosa Anotação 19 de Santo Inácio. O livro apresenta a casa, descreve seus cômodos, mostra os móveis, ensina a entrar nela com conhecimento de causa. Mas quem ficar do lado de fora, lendo sobre a casa, não terá entrado.
Quem ler até o fim com atenção sairá com uma quantidade considerável de informação sobre os Exercícios. Saberá quem foi Inácio. Saberá o que são os Exercícios. Saberá como se estruturam. Saberá como se discerne os espíritos. Saberá como se reza à maneira ignaciana. Saberá onde se faz tudo isso no Brasil de hoje.
Esta informação tem valor — e é por isso que o livro foi escrito. Mas a informação sobre os Exercícios não substitui os Exercícios, assim como a informação sobre uma viagem não substitui a viagem. Quem se contenta com a primeira, fica em casa. Quem quer chegar ao destino, sai.
A oferta deste livro, no fim, é simples: que o leitor saia.
Ad maiorem Dei gloriam.
Disponível em formato Kindle e gratuito para assinantes do Kindle Unlimited.
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