A noite de Akita
Era treze de outubro de mil novecentos e setenta e três, festa litúrgica de Nossa Senhora do Rosário. Na pequena capela do convento das Servas da Santíssima Eucaristia, na localidade de Yuzawadai, nos arredores de Akita, no extremo norte do Japão, a Irmã Agnes Katsuko Sasagawa rezava diante de uma estátua de madeira de Nossa Senhora. A imagem media pouco mais de um metro de altura. Fora esculpida poucos anos antes por um artesão japonês, em madeira de katsura, sem maiores pretensões artísticas. Agnes era surda. Tinha quarenta e dois anos, uma vida de doenças longas, conversão recente do budismo, e o coração inteiro daquela tarde voltado para o sacrário.
A data não era acidental. Cinquenta e seis anos antes, naquele mesmo treze de outubro, em Fátima, Portugal, setenta mil pessoas tinham visto o sol girar e descer sobre a Cova da Iria. Maria havia prometido um sinal para que todos cressem, e cumprira. Agora, na outra ponta do mundo, em outro continente, em outra cultura, num convento minúsculo perdido entre arrozais japoneses, ela voltava a falar. Pela terceira vez naquele ano.
A voz veio da estátua. Agnes a ouviu, embora estivesse surda. Outras religiosas presentes na capela não ouviram nada, mas viram o rosto de Agnes mudar, a lágrima descer, a postura inteira do corpo curvar-se diante do que estava sendo dito. A mensagem foi a mais longa e a mais grave das três que ela recebeu naquele ano. Não falava de promessas. Falava de juízo. A Mãe de Deus transmitiu que, se os homens não se arrependessem e não melhorassem, o Pai imporia um castigo terrível a toda a humanidade, maior que o dilúvio, como nunca se viu antes. Os sobreviventes se encontrariam tão desolados que invejariam os mortos. E acrescentou algo que poucos esperavam ouvir de Nossa Senhora: que a obra do adversário se infiltraria até na Igreja, de tal forma que se veria pastor contra pastor, e que os sacerdotes que a venerassem seriam desprezados e combatidos pelos próprios confrades.
Agnes ouviu tudo. Quando a voz cessou, ficou ali, em silêncio, durante muito tempo. A estátua de madeira voltou a ser apenas estátua. Mas, em mil novecentos e setenta e três, no Japão, numa capela de um convento de quinze religiosas, tinha sido dito, com antecedência, o que se desenrolaria nas décadas seguintes diante dos olhos do mundo inteiro.
A Igreja não desprezou aquela mensagem. Onze anos depois, em vinte e dois de abril de mil novecentos e oitenta e quatro, dom John Shojiro Ito, bispo de Niigata, após uma das investigações canônicas mais cuidadosas do século vinte, publicou uma carta pastoral declarando que os acontecimentos de Akita eram de origem sobrenatural e dignos de fé. Segundo o testemunho de Howard Dee, então embaixador das Filipinas junto à Santa Sé, o cardeal Joseph Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e futuro Papa Bento XVI, teria considerado a mensagem de Akita digna de crédito e próxima da mensagem de Fátima. Não há, porém, documento publicado da Congregação sobre o caso, e o juízo oficial continua sendo o do bispo de Niigata. Quem hoje lê aquelas palavras, e olha para o estado da Igreja no mundo, não precisa de muito esforço para reconhecer o quanto delas já se cumpriu.
Este livro é sobre isso. Sobre o que Maria disse, ao longo dos séculos, em lugares afastados e a pessoas simples. Sobre o que se cumpriu. Sobre o que está se cumprindo agora, diante dos nossos olhos. E sobre o que, segundo a própria Mãe de Deus, ainda virá, e por que ela continua, paciente e materna, avisando o mundo.
O Prólogo termina aqui. Guadalupe, La Salette, Fátima, Akita, o Brasil e o fio profético estão na edição completa.
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