O suplício dos escravos
Há uma cruz no espelho do seu carro, ou houve. Há uma pendurada na parede da sala, ou na cabeceira, herdada de alguém. Há uma medalha no fundo da gaveta e um terço guardado num porta-joias, com o crucifixo já gasto de tanto ser apertado entre dedos que hoje não estão mais aqui. E há, sobretudo, o gesto: a mão que sobe à testa antes de uma conversa difícil, ao passar diante de uma igreja, quando o telefone toca em hora errada. São coisas de casa, tão dentro da paisagem da vida católica brasileira que raramente pedem explicação.
Pois é justamente aí que mora uma das perguntas mais graves da fé, e ela é simples de formular: por que uma forca.
Este capítulo percorre a distância entre o objeto que enfeita a sua casa e aquilo que ele foi na origem, e a percorre no sentido inverso, de volta ao começo. O caminho passa por um lugar áspero, e é justo avisar desde já. Mas não se trata de uma descida ao horror pelo horror: só quem mede a profundidade do abismo em que Cristo desceu consegue depois medir a altura do amor que o levou até lá. O que parece, no início, a página mais dura deste livro, revela-se ao fim a mais consoladora.
Para quem vivia sob o poder de Roma, a cruz não tinha nada de religioso nem de belo. Era uma imagem crua do cotidiano, tão reconhecível quanto a forca seria para séculos mais tarde, e muito mais temida. Quem viajava pelas estradas do império sabia que, em dias de castigo, encontraria à beira do caminho as traves erguidas com os seus condenados, colocadas ali de propósito, à vista de todos, para que o medo entrasse pelos olhos. A cruz era uma linguagem do poder. Falava de força, e falava de terror.
Uma curiosidade do idioma guarda a memória disso melhor do que qualquer descrição. Quando alguém diz hoje que uma dor foi excruciante, está usando, sem saber, uma palavra que os romanos formaram a partir de crux. A língua guardou o que a civilização quis esquecer: para nomear o extremo da dor, foi preciso ir buscar o nome daquele madeiro.
Havia ainda uma fronteira social muito nítida, e ela diz mais do que toda a descrição anterior. A crucifixão era reservada, por regra, aos que não tinham direito algum: escravos, salteadores, inimigos de guerra, agitadores das províncias. A tradição romana chamava-a, sem constrangimento, de suplício dos escravos. Um cidadão de Roma, salvo em casos raríssimos, não podia ser crucificado, porque a lei entendia que havia mortes indignas demais para um homem livre.
Aqui se pode dizer, em voz baixa, a primeira palavra de consolo deste livro. O Filho de Deus não escolheu para si um sofrimento nobre, à altura da sua dignidade. Escolheu o mais baixo de todos, aquele que estava reservado aos últimos, aos sem-nome, aos descartados. Foi precisamente até esse lugar que ele quis descer. Não há fundo de poço onde a Cruz de Cristo não tenha chegado antes.
O primeiro capítulo continua com o grafite de Alexâmeno, o escândalo do Evangelho pregado num crucificado e o sinal levantado no deserto. Os outros oito capítulos, a Conclusão, a novena completa e os apêndices estão na edição inteira.
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